Essencial
Bernardo Rezende
27/04/2008
Desejo de poetas e amantes
Expresso em noite de outono
No alpendre da vovó
Estende os braços
Arregala os olhos
Pedido sedutor para o holofote de
estradas escuras,
casas de sonhos,
amores sem fim.
— Senta aqui Lua!
Quando crescer não esqueça
Fale de coisas impossíveis
Todos querem ouvir
Basta observar
Sentir
Olhar
Declarar
Continue puxando, delicadamente,
bigodinhos de gatos.
Descobertas do mundo
Lembre das imitações:
uivos caninos,
cocoricós sem relógio,
choros de poucos meses.
Mantenha a firmeza
de Nãos, Nãos
Sempre que necessário
Preciso aprender com você
A voz sai clara e grave
Balança a cabeça
Direita, esquerda, direita, esquerda
Quando há insistência a voz cresce
Levanta o dedo indicador
Reforça o que a cabeça já disse
Meu filho descobre pequenos detalhes
Somente dois anos
Em caixinhas de leite,
revistas de moda,
vitrines adultas.
Curiosidade por toda a vida
Risadas gostosas
Declarações lunares
Segue feliz.
Escrito por bernardore às 16h10
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Hoje tem
Bernardo Rezende
fevereiro de 2007
Mulheres aracnídeas são estrelas em sessões privé.
Sobem pelas paredes de quartos familiares.
Os gritos são ouvidos na porta do condomínio.
O bebê chora e tudo pára.
Os peitinhos viram tetas, só por uns instantes.
Transrecomposição imediata em qualquer ordem:
gata, aranha, vaca holandesa........
Passos sem barulho em patinhas forradas de borracha.
Foi apenas um intervalo do primeiro ato.
O lustre espera a mulher trapezista.
Espectador único. O ingresso foi entregue com taça de vinho.
Não há roteiro, ficha técnica, nem ao menos um ensaio!
Ela é rápida e leve, o lustre agüenta.
Desce logo, são muitas patas. Quantos olhos!
Equilíbrio circense de bióloga observadora.
Paralisação total, se movimentar morre.
O animal de hoje é perigoso!
Poupe minha vida, inventa outro bicho.
Digitalizei seu personagem enquanto estava no teto.
Exibo com orgulho para amigos da cerveja.
Os cowboys sacam rapidamente os celulares.
Uma competição de espetáculos!
Cenas inimagináveis, datas comemorativas e reconciliações.
Profissões exóticas e comuns.
Foram cursos escondidos e poucas compras.
Muito mais dedicação.
Em todas as imagens havia lustres.
Segredos e habilidades das alturas.
Escrito por bernardore às 15h45
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Avental Verde
Bernardo Rezende
fevereiro de 2007
Estúpido avental de não sei que tecido.
Ingresso da sala gelada, de equipamentos pim pim
Somos umas almas penadas.
Visitas intrusas e idiotas,
não sabemos se nos ouvem.
Falamos para nós mesmos.
Deuses terrestres falam uma língua própria.
Tem que perguntar. Causas, até quando...
Não pode ter medo. Traduz aqui para o burro.
Não estudei sua língua!
Os deuses não sabem de coisas da noite.
A galera entubada levanta e toma cachaça.
Procedimentos inúteis! Expurgos da mente.
Onde estão os compêndios e os anais da medicina?
Desfile de palavras e exames.
Brinca de cura. Imagina tanta coisa.
Chama o neurocirurgião.
Vamos dar as mãos, abram as cortinas dos boxes!
Levantem com as roupinhas azuis. Façam caretas, quebrem o pim pim.
Mostrem suas bundas para os assessores dos deuses.
Vocês são capazes de uma rebelião.
A morte é uma invenção da Santa Casa da Misericórdia.
Combinação de mafiosos terrestres e do além.
Acorda, galerinha de azul!
Lá fora deu praia, parou de chover.
Os verdes chegaram, a farsa acabou.
O mundo chama vocês, cachaceiros da noite.
Escrito por bernardore às 12h57
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Cor da Vida
Bernardo Rezende
janeiro de 2007
Esqueça um pouco os cadáveres necessários.
Acabaram-se as revoluções.
O vermelho jorra para as bolsinhas.
Confortáveis poltronas no lugar do paredão.
Somos voluntários, já não há traidores.
O vermelho é a vida.
Foi preciso em outros tempos ser a morte.
Desvio a mente da sensação de estar murchando.
Lembro de uma experiente e sensível jornalista.
Ela me ensinou a ler paredes.
Que jeito diferente de medir a pressão!
A ansiedade acabou.
São apenas 450 ml, abre e fecha a mão.
Sorrisos no lanche, com direito a olhares penetrantes.
O rapaz-senhor é sangue bom!
Quantos anos ele tem?
A hematologista ficou na sala de coleta,
agora desfila de mulher.
Ahhh! Que longos caninos!
Que olhos brilhantes!
Hoje não é dia de excessos.
Beba muita água.
Cuidado com seu pescoço.
Equipe de loiras sedutoras.
Tudo muito bom, cuidados anti-ético.
Olhos de morango e unhas anti-hospitalar.
Na primeira doação virei escravo.
Onde está o seu castelo? Oh, vampira residente!!!!
Eu vi sua boca salivando,
quando bombeava o meu sangue.
Homens daqui a sessenta dias.
Resta apenas esperar o calendário.
Escrito por bernardore às 16h03
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Psi Pisca
Bernardo Rezende
janeiro de 2007
Não existem blocos ou fichas.
O homem pisca os olhos como sono,
mas já passou da fase de cansaço!
Consulta seu arquivo, pisca novamente.
Livros, pacientes e seminários foram acessados.
Técnica aprendida ao acaso, nem ele sabe o que é isto.
Se pedirem um curso de como se pisca demorado,
os olhos serão arregalados.
Provavelmente em um dia de assunto cactáceo,
sem luva ou pinças...
Observei o homem piscar.
Nunca havia percebido e só depois fui entender.
Imagina quantas vezes por semana.
Quantas placas de memória.
Quantos gigabytes.
Cuidado com o sinal de trânsito!
Pisca do jeito “certo”, olha o carro da frente.
Já piscou daquele jeito no meio das férias.
Acessa esta placa só no consultório.
Não são placas separadas.
Quando pisca vem tudo ao mesmo tempo.
Aparente confusão traz silêncio e palavras na hora certa.
Convite para palestra:
—Não tenho como explicar.
São ouvidos aprendizes e ânsia de tudo saber.
Escrito por bernardore às 15h52
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Periscópio
Bernardo Rezende
janeiro/2007
Apartamento projetado por engenheiro naval,
nos tempos do cólera Gabriel fala de um escritório.
Espaço tão pequeno e cabe um quarto ansioso.
Cabe tudo!!!!!!!!
Lance a família ao mar com o 305, eles vão sobreviver.
O engenheiro construiu submarinos, quanta ergonomia!
Sofrimento e prazer na prancheta e no mar.
A cabine das crianças ficou vazia e não era momento de emergir.
Corpos lançados como torpedos em plena madrugada......
Tio-paterno registra em terra certidões de vida e morte.
Amigo celacanto, qual a profundidade aqui?
Onde está o maremoto? Vamos resistir?
Escrevemos cartas e plantamos, tudo dentro de garrafas.
Um dia alguém encontra.
Pintei a cabine de branco, dobramos pássaros e peixes.
Tripulação incompleta, ainda dá tempo de subir.
Ligamos o radar, náufragos por toda a parte.
Nós pedimos socorro!!!!!!!!!!
Corpos boiando, não é permitido ajudar.
Volta das férias excelentíssimo.
Escrito por bernardore às 22h42
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Caminho da Luz
Bernardo Rezende
Onde está a organização não governamental dos silêncios impostos?
Cala a boca senão eu conto o que você falou!!!!!!
Ninguém vai saber de nada, todo mundo saiu.
Mata tua família, irmãos e pais.
Depois volta com outra.
Está tudo bem no almoço de Natal!
Doente é o distante que renega, que pensa.....
Esquece, já foi há tanto tempo.
Não te perdôo por não perdoar.
Concede a coisa ordinária e covarde.
Junta coragem e escreve um novo mandamento:
"Matarás pela salvação!"
Ressuscita a Santa Inquisição, queima seus escritos!
Agora é tarde, já está na Rede.
O que você quer dizer com isto? Seja claro.
Junta teus panos, tua alma, teus pés e teu passado.
Tudo tão velado, agora é metaforeado.
Quero meus elogios: herege, louco, perverso, iconoclasta.........
Quero o elogio da língua solta e da bosta no ventilador Furacão.
Parece pastosa, é divertido.
O que mais? Volto para o Galba ou para o Raul Soares?
Nunca estive lá!!!!!!!!!!
Vai respingar, abaixe a cabeça.
Tapa o nariz, pega o lenço.
A coisa está feita. Atira com força.
É o caminho da merda a caminho da luz.
Aprendi a escrever, graças a Deus.
É uma benção não existir inspiração.
Coisa nenhuma cai do céu, mas abaixe a cabeça.
Aqui não tem rima maldita!
Escrito por bernardore às 14h33
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Levitação
Bernardo Rezende
Está muito distante, tanta água, tantas horas......
Um oceano inteiro separa e aproxima.
Palavras sem medo chegam no mesmo instante.
Não é a tecnologia que qualquer um clica.
Você vai mais longe. Traça infinitos destinos.
Muitos já leram o que escrevi.
Você não me pergunta os porquês. Obrigado.
Me manda energia dos ventos, do sol, das marés.....
Fico carregado, de força sem fim.
Onde está sua fonte? Conta para o mundo!
Palavras presentes, com três ou quatro horas a mais.
Rosária não está aqui, mas vejo seus olhos e escuto sua voz.
Fala outra vez, escreve de novo. Não pára.
O sentimento do todo, do tudo.
Você já pensou nos seus pés alados?
E na sua mente galáctica?
Voa mais alto que a Torre. Que visão panorâmica!
No entanto não perde os detalhes.
Aterrissa sob aplausos. Que controle!
Não é preciso estar perto!
Quando nos vemos outra vez?
Escrito por bernardore às 15h48
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Carbono 14
Bernardo Rezende
Segredo no leito da morte ou na mesa do bar
Depois da última morfina ou do Pedro Almodóvar?
O que não tinha explicação foi entendido
Roda o filme sem cortes, não existe censor!!!!!!!!!
Será preciso heterônimo para falar?
Vale filmar, escrever ou livre associar.
A senhora de oitenta anos falou.
Parente distante foi escolhido para ouvir
Segredo familiar regado com cal.
Vai carregar a culpa, morrer com ela.
Não! Ainda teve tempo de falar.
Velha tia torta, você deveria ter ido ao cinema.
Foi tanta chuva, engarrafamento e acidentes.
Cerveja em qualquer bar, a cabeça na história.
Velha tia que não estava sozinha.
Irmãzinha querida, mãe e avó.
Apenas você não sabia.
De novo. Alguém na família se salva?
Qual a data das peças do sítio?
Não escava tudo de uma vez, nova técnicas virão.
Ponto final. Vamos ver até quando.
As crianças não entendem. Ficaram conchas e caquinhos.
Um dia elas crescem e perguntam.
Talvez sejam chamadas quase no fim.
Soros e tubos. Vozes perdidas e mãos frias.
Ainda dá tempo, em olhares distantes.
Fala sem cura, tua hora acabou.
Não é tia! É pai e avô.
Viaja em paz. Por que só agora?
Joga a cal, mas o sítio ficou.
Escrito por bernardore às 00h05
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Obra Aberta
Bernardo Rezende
Sexagenária “Selecta”, lotada de sonhos e terras.
Minério de ferro até quando?
Seixo-bola de longas caminhadas e travessias
Plantação de pedras foi idéia de veterinário!
Paisagistas do micro ou jardineiros?
Imersos em desejos e projetos
Corpos molhados de chuva
Ataque de lesmas no meio da noite.
Lanternas e pinças
A echeveria foi salva.
Beijos e tudo
Os vasos de cerâmica viram...
A Fundição Indígena fechou.
Hoje ninguém toma banho em banheiras com patas
Carneiro ou leão?
Antiquário e topa-tudo, outro dia achei.
Fotos nunca reveladas, mas a “Selecta” vai longe
Atravessa o oceano e estradas
Crassula, echeveria elegans e kalanchoe marmorato
Prefiro uva itália, orelha de gato e boca de tubarão
Uma criança descobre uma pedra
Passa a mãozinha na superfície lisa e molhada
Sorri curiosa, que plantas são estas?
Por que tanta pedra?
Cansei da euphorbia, monotonia espetada
Descobri uma nova, ainda não batizei
Esquece o latinorum, parece com o que?
Quando der flor fotografo.
Escrito por bernardore às 18h25
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Caixinha Obrigado
Bernardo Rezende
Sorrisos ortodônticos e calcinhas em corredores estreitos
O mínimo é sete, dez, quinze...
Qual será a oclusão?
Classe I, II ou III?
Sobe, desce, olha e escuta
É proibido vendedor ambulante. Esconde.
Cofres de porquinho sadomasoquista
Faz tua poupança.
Agora não. Estou apenas conhecendo.
Um dia o máximo é quase tudo
Nunca de novo outra vez.
Chega, mas ainda é pouco.
Quarto 208, depois da curva, antes da eterna fila.
Toma um gole, ninguém te vê.
Muitas portas abertas, para que esperar.
Sotaque estranho e nunca tem clientes.
Privada quase mesinha de cabeceira
Tudo já foi aspirado
Porta trancada e jogo limpo.
Assim é mais caro?
Olho no olho e já foi
O que você faz fora daqui?
Tudo mentira, fala pelo menos o nome.
Boas Festas, Feliz Natal!
Não sei se volto outra vez.
Sobe, desce, onde está o 208?
O mínimo é muito pouco.
Tinha que custar bem mais.
Escrito por bernardore às 15h55
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Ecletismo paterno
Bernardo Rezende
Vai pai, sobe novamente a rua da região portuária com uniforme do Pedro II
Lembra dos navios de todas das bandeiras que entravam e saíam da grande baía
Por que não me falou destes grandes navios?
Por que não me falou que pintava nos seus cadernos sacas de café e guindastes?
O mundo inteiro aportava aos seus pés e você via da janela de seu quarto
Pedacinhos de pano das mais diversas cores, com estrelas e brasões indecifráveis
Alguns tinham espadas e luas e você sabia de onde eles vinham, o que traziam e o que levavam
Hoje eu descobri o que você sempre se perguntou. Talvez você soubesse!
O budinha sorridente, a dama do jazz, o disco dos japas com o Monte Fuji, o halawe e os pastéis de Belém
Religião, música, comida, filosofia, batinas e uniformes, línguas antigas e vivas
Tudo chegava para quem “estava de olho”
Você foi estudar outras línguas, depois me disse de onde vieram muitas palavras
Esqueça as rotinas tristes, a falta de carinho da mãe e o silêncio do pai
Um mundo inteiro dentro de você e na ladeira onde também morou o Machado de Assis
O funcionário do Moinho deixou ferramentas que ainda podem ser usadas
Seu pai era respeitado e tinha um chefe estrangeiro
Hoje um “insight” me transportou, de montanhas distantes, para a Baía de Guanabara
Agora entendi, e tudo por causa de um poeta português e um disco de vinil
Também tive quase todo o mundo pra mim, com o pai que viu todos os navios
Muito mais tarde pôde ir para o Tom Jobim e conhecer mosteiros, castelos e pirâmides
Levar para o mundo também é função paterna
Você me levou para o mundo!
Não tem problema ter medo de cavalos
Você acende incensos e escreve em grego e latim
Escrito por bernardore às 18h13
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Onírico/erótico 4º andar
Bernardo Rezende
No 4º andar tudo é mais bonito, apesar de não se ver o mar
De lá se vê a igreja neo-gótica e árvores floridas
É pra lá que eu quero subir, depois que a aula acabar e todo mundo sumir
Ouço histórias de arrepiar, de excitar e de tagarelar
Quando se ouve gemidos nem é preciso fingir
Vieram lá do 4º andar
Deixa rolar que todo mundo um dia vai querer
"Não adianta vigiar e punir", diz o segurança lendo Foucault
Todos querem bater, matar, gozar, brincar e aprender
Os corajosos lá se escondem
Os medrosos apenas "comentam" ou imaginam
É lugar de meter ou de amar?
No 4º andar o mundo se realiza
Será que existe este lugar?
Será que tem gente que vai?
Alguém me falou, que falou, que falou, que ouviu dizer
Vai sobe até lá!
Constrói o seu 4º andar
Escrito por bernardore às 08h32
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O Pão Nosso De Cada Dia
Bernardo Rezende
O pãozinho de sal agora é vendido a peso, mas continua carregado, em todo o Brasil, pelo custo do amor e ódio. A Associação Brasileira dos Panificadores, nem sei se existe, e todas as famílias de proprietários de padarias e confeitarias de todo o Brasil precisam saber que os pães, broinhas, bolos, torradas, tortas, sonhos, marta-rochas e outras guloseimas estão ameaçados pela inveja, desejos insatisfeitos e complexos diversos.
A gostozinha da gerente sai com a bunda suja de farinha todas as noites de sexta-feira, depois que a Padaria Pão Nosso fecha. O Sr. Amadeu contou as últimas moedas, apagou as luzes do letreiro, acionou o alarme e conferiu no relógio há quanto tempo tinha tomado seu remedinho para disfunção erétil. Clotilde exibia a insuperável pretinha de renda e estava deitada de costas nos sacos de farinha, conforme o pedido de Dedeu.
—Tira os óculos Clô!
—Amorzão já te falei dos meus nove graus, assim não vejo nada. Gosto de ver sua expressão de desejo.
Clotilde não se separava da caixa protetora dos olhinhos, como todo o míope precavido, e obedientemente guardou os óculos. Colocou dois pequenos quindins sobre os seios e na barriga traçou uma setinha de brigadeiros apontada para a região genital.
—Vem Dedeu onde você está? Quero você!
—Não estou agüentando te ver assim, quero morrer nesta padaria. Você é demais, inventa cada coisa que me deixa louco!
A taxa de glicose do Sr. Amadeu subiu, subiu, subiu junto com as portas da padaria e do depósito. O rádio e o frenesi panificador impediram-os de escutar qualquer ruído. O casal estava às gargalhadas e completamente branco de farinha.
Na porta do depósito a esposa e dois filhos do Sr.Amadeu ficaram paralisados. Atrás da família havia uma senhora vestida de preto, especialista em gestão de pessoas e consultora master de panificadoras e empresas do ramo. Ela carregava um lap top e um sorriso amarelo. Thiago, filho mais novo e estudante de administração, soltou dois peidos e gritou.
—Papai trouxemos a consultora que te falei!
Esta história não é piada mal contada. Qualquer semelhança com fatos reais não é mera coincidência. Casos como este acontecem, quase todos os dias, nas melhores casas do ramo. O que muda são os docinhos, algumas vezes substituídos por salgadinhos. Na próxima compra de pãezinhos de sal pense na Clô e no Dedeu, o seu café da manhã pode ficar mais animado.
Escrito por bernardore às 00h00
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Peixinho Bom
Bernardo Rezende
26 de junho de 2006
Quando uma pessoa diz não gostar de algo comestível, sem nunca ter experimentado, fico indignado. Parece que acham interessante listar os pratos ou alimentos que "não gostam". O pior é falar com ar de superioridade ou cara de nojo, sobre coisas que nem sabem descrever o sabor. É comum a crise de abstinência do arroz com feijão, depois de somente dois dias, em um país de hábitos alimentares totalmente diferente do nosso.
Adoro dobradinha com feijão branco, mas acho perfeitamente compreensível muita gente não gostar. É um prato que precisa ser bem feito e manter uma certa distância durante a confecção. Língua de boi está na lista negra dos comedores de bife com batata frita, mas acho um prato divertido, engraçado e gostoso.
Uma amiga de escola, que "detestava" língua, foi enganada há mais de vinte anos na casa dos meus pais. A Cleuza preparava uma língua deliciosa e cortava em pequenos pedaços, para tirar aquele aspecto ruminante e tagarela da travessa. Combinei com Cleuzita mudar o nome do prato, coisa boba, simples detalhe. Claudinha repetiu a língua três vezes, e disse que nunca tinha comido uma carne assada tão gostosa e macia. Dois dias depois revelei, na escola, a verdadeira identidade da carne assada. Ela vomitou na hora o cheeseggbacontudo, devorado no recreio, em cima da minha mochila e disse para eu nunca mais conversar com ela.
A tentativa frustrada de fazer uma amiga de escola gostar de língua, me deixou traumatizado. Idealizei uma expurgação perfeita para o meu trauma. O XXIII Festival Gastronômico de Minas Gerais, será realizado no Expominas em dezembro, e terá como principal atração um espetáculo lingüístico comandado pela grande chef Cleuzita. Os visitantes que se negarem a experimentar qualquer prato serão levados, algemados, para uma grande cozinha envidraçada. (Eles vão pensar que é um reality show.) Suas linguinhas serão decepadas (sem anestesia) por uma grande faca de cabo branco, acompanhada do sorriso da chef, e preparadas ao molho madeira. Em seguida serão degustadas pelos espectadores. A atração lingüística terá um slogan forte e contundente: "Experimente agora ou cale-se para sempre". O público vai experimentar todos os pratos do Festival, exóticos ou triviais.
Existem técnicas educativas, bem menos intervencionistas, para ampliar os paladares já na mais tenra idade. Fui aluno aplicado do óleo de fígado de bacalhau. O método é simples, barato e eficiente. Se a criança não comer o que estiver na mesa, ela toma uma colher grande do delicioso óleo. Se isto aconteceu no almoço, comida só na hora do jantar. A criança vai lamber os beiços até para jiló, miolos ou sarapatel.
Escrito por bernardore às 01h31
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