Jogo da Memória
Bernardo Rezende
19 de junho de 2006
Em noites de saudades de um Rio subia a Avenida Afonso Pena, até a Praça do Papa. O distante fim das luzes da cidade transformava-se no contorno da Baía de Guanabara. Montanhas escuras viravam um mar onírico. Durante o dia as antenas da Serra do Curral, vistas da Sagrada Família, pareciam as antenas do Sumaré.
Era uma criança aprendendo o Jogo da Memória. A peça igual era procurada no meio de tanta novidade. Estamos sempre tentando encontrar paisagens, emoções e pessoas conhecidas em tudo que é novo?
Voltar ao Rio de Janeiro fez a situação se inverter. As palmeiras imperiais do Jardim Botânico me fizeram lembrar da Praça da Liberdade, do coreto, das grandes bolotas rosas floridas dos ipês.
Quando cheguei em BH o céu estava sempre azul, sem nenhuma nuvem, e fazia muito frio. Fiquei com saudades de Teresópolis, lá fazia dias assim. No Rio céu azul é sinal de muito calor.
Viver novas experiências em novos lugares significa aumentar as peças do Jogo. Ganhamos uma nova peça e ficamos a procura do par, talvez por insegurança ou saudades. Algumas peças nasceram para a solidão e isto torna-as especiais.
Hoje a Serra da Piedade, admirada do Caiçara, é uma das minhas peças solitárias. Outra peça sem par é o carinho, admiração e amor de Cristina.
Foi o céu, maravilhosamente azul de um sábado mineiro, que me fez escrever sobre os quadradinhos de lembranças.
Escrito por bernardore às 19h29
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Valeu Giovanni!
Bernardo Rezende
Le Corbusier tem um lugar de destaque, com a chaise longe preta e estrutura de aço inox, no meio da sala. Não é o único lugar para se acomodar. Existe um pequeno sofá revestido por uma colcha, uma confortável poltrona presa no teto que balança para qualquer lado, uma velha cadeira de dentista (comprada em antiquário, dizem que pertenceu ao Dr.Joaquim Xavier), uma cadeira comum de escritório e muito chão para sentar. A poltrona pendurada em forma de casulo é a minha preferida, principalmente quando entra o sol em dias de inverno.
A primeira sessão começou na portaria do prédio. As botas Timberland e o cabelo longo e preso em rabo de cavalo foram uma boa recepção. "Este cara não deve ser um terapeuta chato e arrogante." Quando cheguei no consultório pude escolher meu lugar. O relativo desconforto da situação me fez optar por um lugar cheio de atrativos: o pequeno sofá com vista para a Serra da Piedade, jardim interno, livros ( tentava ler as lombadas), brinquedos de madeiras com movimento, pé direito alto e janelas amplas sem cortinas. A leitura instantânea do ambiente me deixou a vontade, apesar de um certo sufoco inicial sobre o que falar.
Na semana seguinte preparei uma sessão espetáculo. Cheguei de "arqueólogo", com um traje estereotipado e improvisado, uma bolsa cheia de objetos e fotos das minhas escavações. Carregava um aparelho de som, pois havia montado uma trilha sonora para apresentar minhas descobertas. Talvez um terapeuta chato e arrogante tivesse me enviado para um psiquiatra. Pelos olhares no elevador e corredor devem ter imaginado que eu ia para uma filmagem tupiniquim do filme Indiana Jones e o Tesouro da Serra do Cipó.
Não tenho tanta imaginação e criatividade para fazer pockets shows em todas as sessões, mas me lembro de uma outra que foi divertida. Cheguei com uma mala de caixeiro viajante, e no consultório tirei de dentro dela peças que me transformaram em criador de gado leiteiro. Contei como escrevi uma matéria sobre o papel das galinhas d’angola em fazendas de vacas holandesas.
Descobri que terapia não precisa ser apenas sofrimento, é claro que também tem!
Os pockets shows falam muito e são divertidos. Sou eu mesmo, na minha história e nos meus relacionamentos. Tenho dois espectadores: o Giovanni e eu mesmo. Quando "interpreto" ou falo em algum dos lugares do consultório ( gosto de variar), arrumo a cabeça, falo para mim, com a ajuda do diretor de cena.
Já tive vários horários diferentes de manhã, tarde ou noite. Já vi sair do consultório gente de todas as idades, crianças, jovens e velhos. Giovanni não tem aquela babaquice ortodoxa do aperto de mão, da distância terapeuta e paciente. Ele abraça, sorri, fica sério, pensativo, coça o nariz, emociona-se e dá gargalhadas. Ele aceita o Cebolitos que eu levei para uma sessão, adoro tudo da marca do bonequinho sorridente. Este terapeuta é gente!
Há pouco tempo fiquei surpreso quando uma amiga contou-me da sua terapia. Ela apenas via a ponta do sapato do ortodoxo. Disse que ficava irritada com aquilo e não estava gostando do cara. Fui curto e grosso: manda ele para a PQP.
Hoje comemoro três anos de terapia! Agradeço ao Giovanni pela direção de cena!
É um diretor que sabe ouvir, falar e não dá ordens, os atores buscam seus próprios caminhos! Obrigado por tudo! Valeu Timberland e cabelos presos!
Escrito por bernardore às 11h34
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Terapia no Cyberespaço
Bernardo Rezende
A tela do computador tinha mais janelas abertas do que o Espigão do Caiçara em um dia de verão. Marcela voava de uma para outra em uma velocidade incrível. Eram muitos assuntos diferentes, desde problemas de mastite e alimentação do gado holandês, máquinas fotográficas digitais, bandas de rock , tênis de skatista, fotologs e até doces árabes. Marcela me contava da matéria que escrevia sobre o leite no Fome Zero, enquanto abria, lia e fechava os mais variados sites e links.
A velocidade da amiga superconectada me assustou. Não consegui esconder o desconforto em ver tantas ações e interesses ao mesmo tempo. O pior foi ouvir: “O meu pai sente a mesma coisa”. Recorro ao filósofo Pierre Lévy para entender e aceitar que não tenho mais vinte e poucos anos e preciso navegar mais rápido.
Lévy no texto “Educação e Cybercultura” diz : “a maioria dos saberes adquiridos no começo de uma carreira estarão obsoletos no fim de um percurso profissional, até mesmo antes.” É preciso estarmos atentos também para as novas formas de adquirir conhecimentos. Um aprendiz de navegante veloz e com desejo de tornar-se jornalista, pode conseguir energia com o mestre da hipermídia. Em “As Inteligências Coletivas” Pierre Lévy descreve três aspectos da linguagem, que nos possibilita linkar com a essência do trabalho do jornalismo. Para ele a linguagem permite fazer perguntas, contar histórias e dialogar.
E neste perguntar sem fim podemos cantar e navegar com Gilberto Gil na música “Pela Internet”: Um barco que veleje nesse informar/ Que aproveite a vazante da infomaré/ Que leve meu e-mail até Calcutá/ Depois de um hot-link/ Num site de Helsinque/ Para abastecer/ Eu quero entrar na rede/ Promover um debate/ Juntar via Internet/ Um grupo de tietes de Connecticut
Escrito por bernardore às 09h31
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Campo Filosófico
Bernardo Rezende
No alto da arquibancada uma senhora de chapéu de palha, óculos escuros, camisa vermelha e bermudão senta em posição de meditação. Depois de 15 minutos desce devagar até o gramado e abre o portão. Um segurança tenta impedi-la, aquele era o último treino antes da decisão.
Ela liga o velho walkman e caminha em volta do campo, sem se importar com as bolas que cruzam sua cabeça. Treinador e jogadores trocam discretos olhares com a invasora. Repórteres ficam curiosos com a presença daquela senhora e percebem uma cumplicidade. Há muito tempo os jogadores davam resposta estranhas para a mídia e algumas vezes respondiam com perguntas. A caminhada termina, o segurança abre o portão e pede desculpas. Martha deixa rapidamente o Clube, mas é seguida por um homem.
Depois da novela o interfone toca sem parar. O porteiro libera o grande portão para os carros de vidros escuros, que pareciam de controle remoto. Os homens descem encapuzados e fornecem a senha: “Conhece-te a ti mesmo”. Martha aguarda na entrada de um grande salão. Cadeiras formam um círculo com nomes em cada uma delas: Nietszche, Kant, Heidegger, Platão, Schopenhauer, Bergson, Sartre... Cada um tem seu lugar determinado, mas falta uma cadeira. O problema é resolvido imediatamente, porém com certa desconfiança.
No dia seguinte um grande jornal da cidade publica na primeira página: “Equipe carioca de futebol estuda filosofia em reuniões secretas”. No outro dia nova manchete: “Jogadores filósofos ganham campeonato brasileiro.”
Escrito por bernardore às 16h22
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O Tchau da Rampa
Bernardo Rezende
A cerveja já não descia gostoso pela garganta, a porção de calabreza tinha esfriado, a cada 10 minutos era preciso ir ao banheiro. As cadeiras subiam nas mesas e exibiam pernas e costas, num espetáculo acrobático.
Foram anos de conversa de irmãos distantes na mesma cidade. Eram os únicos da família, dispersa e fragmentada, que ainda se encontravam em dias onde na mesa não havia rabanadas, chester, tâmaras, uvas, mousses, decorativos/açucarados fios de ovos e outras comilanças.
Os olhos enchiam-se d’água enquanto falavam do presente e falecido avô. O médico tentava esconder as lágrimas, ex-paraquedista e mergulhador não chora. Ele se orgulhava de ter usado botas marrons da tropa de elite e salvado muitas vidas. Alguns chegaram mortos em suas mãos, outros só tiveram tempo de dizer: “imbatível militar”.
As mãos fortes e grandes do avô fizeram jóias e consertaram relógios. Gravaram em pequenos talheres de prata os nomes dos netos. Faca, garfo e colherzinha foram arqueologicamente resgatados na conversa. O historiador, com cinco anos de terapia, voltou do banheiro esbarrando nas cadeiras. Pegou uma faca esquecida no balcão e disse em tom triunfante:
—A faca é a defesa, o garfo é para o alimento e a colherzinha a cura das doenças, transporte dos intragáveis antibióticos.Tivemos tudo que precisávamos! Vovô não esqueceu de nada! Avança! Silêncio na mesa. O médico arregalou os olhos, do mesmo jeito que fazia quando criança — o zoiudo voltou para surpresa do irmão. Avança tem um significado especial para os dois. Era esse o grito de guerra do avô ao atravessar pistas de velocidade, levando metade das crianças da rua onde moravam, para jogar bola no Aterro do Flamengo. De mãos dadas com o avô, historiador de um lado e médico do outro, uma grande corrente de crianças vencia ruas, avenidas e pistas para chegar ao campo de Burle Marx. Uma simples palavra, quase um código secreto familiar para voltar ao passado, fez o médico lembrar de merendeira, mochila de couro, calças curtas, cabelos de franjinha e sorrisos de freiras com uma espécie de caixa de sapato na cabeça.
—Eu sempre me lembro do tchau da rampa. Nunca vou me esquecer disso.O historiador levava o irmão para a escola de mãos dadas. No pátio o zoiudo pedia o tchau da rampa. Formava-se uma fila indiana, as crianças subiam devagar a rampa para as salas de aula. O caçula ia sumindo aos poucos e ele não parava de acenar e conversar com os colegas. Quando já não era mais possível ver seu corpo, ele parava a fila e colocava o braço no pequeno espaço entre o final da rampa e o primeiro andar. Não se via mais nada apenas a mão balançando. O médico nunca soube se o irmão esperava até este momento.
—Sempre tive medo de que você machucasse o braço no último tchau. Médico e historiador abraçaram-se. Falaram ao mesmo tempo:
—Vamos tomar mais uma!
Escrito por bernardore às 15h38
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