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Blog de bernardore
 


Peixinho Bom

Bernardo Rezende

26 de junho de 2006

Quando uma pessoa diz não gostar de algo comestível, sem nunca ter experimentado, fico indignado. Parece que acham interessante listar os pratos ou alimentos que "não gostam". O pior é falar com ar de superioridade ou cara de nojo, sobre coisas que nem sabem descrever o sabor. É comum a crise de abstinência do arroz com feijão, depois de somente dois dias, em um país de hábitos alimentares totalmente diferente do nosso.

Adoro dobradinha com feijão branco, mas acho perfeitamente compreensível muita gente não gostar. É um prato que precisa ser bem feito e manter uma certa distância durante a confecção. Língua de boi está na lista negra dos comedores de bife com batata frita, mas acho um prato divertido, engraçado e gostoso.

Uma amiga de escola, que "detestava" língua, foi enganada há mais de vinte anos na casa dos meus pais. A Cleuza preparava uma língua deliciosa e cortava em pequenos pedaços, para tirar aquele aspecto ruminante e tagarela da travessa. Combinei com Cleuzita mudar o nome do prato, coisa boba, simples detalhe. Claudinha repetiu a língua três vezes, e disse que nunca tinha comido uma carne assada tão gostosa e macia. Dois dias depois revelei, na escola, a verdadeira identidade da carne assada. Ela vomitou na hora o cheeseggbacontudo, devorado no recreio, em cima da minha mochila e disse para eu nunca mais conversar com ela.

A tentativa frustrada de fazer uma amiga de escola gostar de língua, me deixou traumatizado. Idealizei uma expurgação perfeita para o meu trauma. O XXIII Festival Gastronômico de Minas Gerais, será realizado no Expominas em dezembro, e terá como principal atração um espetáculo lingüístico comandado pela grande chef Cleuzita. Os visitantes que se negarem a experimentar qualquer prato serão levados, algemados, para uma grande cozinha envidraçada. (Eles vão pensar que é um reality show.) Suas linguinhas serão decepadas (sem anestesia) por uma grande faca de cabo branco, acompanhada do sorriso da chef, e preparadas ao molho madeira. Em seguida serão degustadas pelos espectadores. A atração lingüística terá um slogan forte e contundente: "Experimente agora ou cale-se para sempre". O público vai experimentar todos os pratos do Festival, exóticos ou triviais.

Existem técnicas educativas, bem menos intervencionistas, para ampliar os paladares já na mais tenra idade. Fui aluno aplicado do óleo de fígado de bacalhau. O método é simples, barato e eficiente. Se a criança não comer o que estiver na mesa, ela toma uma colher grande do delicioso óleo. Se isto aconteceu no almoço, comida só na hora do jantar. A criança vai lamber os beiços até para jiló, miolos ou sarapatel.



Escrito por bernardore às 01h31
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