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Blog de bernardore
 


O Pão Nosso De Cada Dia

 

Bernardo Rezende

O pãozinho de sal agora é vendido a peso, mas continua carregado, em todo o Brasil, pelo custo do amor e ódio. A Associação Brasileira dos Panificadores, nem sei se existe, e todas as famílias de proprietários de padarias e confeitarias de todo o Brasil precisam saber que os pães, broinhas, bolos, torradas, tortas, sonhos, marta-rochas e outras guloseimas estão ameaçados pela inveja, desejos insatisfeitos e complexos diversos.

A gostozinha da gerente sai com a bunda suja de farinha todas as noites de sexta-feira, depois que a Padaria Pão Nosso fecha. O Sr. Amadeu contou as últimas moedas, apagou as luzes do letreiro, acionou o alarme e conferiu no relógio há quanto tempo tinha tomado seu remedinho para disfunção erétil. Clotilde exibia a insuperável pretinha de renda e estava deitada de costas nos sacos de farinha, conforme o pedido de Dedeu.

—Tira os óculos Clô!

—Amorzão já te falei dos meus nove graus, assim não vejo nada. Gosto de ver sua expressão de desejo.

Clotilde não se separava da caixa protetora dos olhinhos, como todo o míope precavido, e obedientemente guardou os óculos. Colocou dois pequenos quindins sobre os seios e na barriga traçou uma setinha de brigadeiros apontada para a região genital.

—Vem Dedeu onde você está? Quero você!

—Não estou agüentando te ver assim, quero morrer nesta padaria. Você é demais, inventa cada coisa que me deixa louco!

A taxa de glicose do Sr. Amadeu subiu, subiu, subiu junto com as portas da padaria e do depósito. O rádio e o frenesi panificador impediram-os de escutar qualquer ruído. O casal estava às gargalhadas e completamente branco de farinha.

Na porta do depósito a esposa e dois filhos do Sr.Amadeu ficaram paralisados. Atrás da família havia uma senhora vestida de preto, especialista em gestão de pessoas e consultora master de panificadoras e empresas do ramo. Ela carregava um lap top e um sorriso amarelo. Thiago, filho mais novo e estudante de administração, soltou dois peidos e gritou.

—Papai trouxemos a consultora que te falei!

Esta história não é piada mal contada. Qualquer semelhança com fatos reais não é mera coincidência. Casos como este acontecem, quase todos os dias, nas melhores casas do ramo. O que muda são os docinhos, algumas vezes substituídos por salgadinhos. Na próxima compra de pãezinhos de sal pense na Clô e no Dedeu, o seu café da manhã pode ficar mais animado.



Escrito por bernardore às 00h00
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