Ecletismo paterno
Bernardo Rezende
Vai pai, sobe novamente a rua da região portuária com uniforme do Pedro II
Lembra dos navios de todas das bandeiras que entravam e saíam da grande baía
Por que não me falou destes grandes navios?
Por que não me falou que pintava nos seus cadernos sacas de café e guindastes?
O mundo inteiro aportava aos seus pés e você via da janela de seu quarto
Pedacinhos de pano das mais diversas cores, com estrelas e brasões indecifráveis
Alguns tinham espadas e luas e você sabia de onde eles vinham, o que traziam e o que levavam
Hoje eu descobri o que você sempre se perguntou. Talvez você soubesse!
O budinha sorridente, a dama do jazz, o disco dos japas com o Monte Fuji, o halawe e os pastéis de Belém
Religião, música, comida, filosofia, batinas e uniformes, línguas antigas e vivas
Tudo chegava para quem “estava de olho”
Você foi estudar outras línguas, depois me disse de onde vieram muitas palavras
Esqueça as rotinas tristes, a falta de carinho da mãe e o silêncio do pai
Um mundo inteiro dentro de você e na ladeira onde também morou o Machado de Assis
O funcionário do Moinho deixou ferramentas que ainda podem ser usadas
Seu pai era respeitado e tinha um chefe estrangeiro
Hoje um “insight” me transportou, de montanhas distantes, para a Baía de Guanabara
Agora entendi, e tudo por causa de um poeta português e um disco de vinil
Também tive quase todo o mundo pra mim, com o pai que viu todos os navios
Muito mais tarde pôde ir para o Tom Jobim e conhecer mosteiros, castelos e pirâmides
Levar para o mundo também é função paterna
Você me levou para o mundo!
Não tem problema ter medo de cavalos
Você acende incensos e escreve em grego e latim
Escrito por bernardore às 18h13
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